Surpreendentemente, Toronto!

Se tem um lugar que eu sempre quis conhecer, esse lugar é o Canadá! Isso porque sempre ouvia falar da organização, educação das pessoas, qualidade de vida como sendo uma das melhores do mundo. Então, planejando uma visita aos Estados Unidos, onde minha primeira parada seria New York, pensei: essa é a hora de realizar o sonho e conhecer esse maravilhoso país. Então, como incluiria o Canadá na viagem, ainda no Brasil entrei com o pedido de visto (que é bem simples e você pode fazer sozinho – em breve farei um post contando sobre esse processo), montei meu roteiro, comprei as passagens e reservei os hotéis. Programei começar minha viagem pelo Canadá por Toronto, que fica a apenas 1h30 de voo de NY.

Bom, agosto chegou, fui para NY e, de lá, voei para Toronto, em um voo operado pela Air Canada, que, diga-se de passagem, é uma excelente companhia. O voo foi super tranquilo e, rapidamente, aterrissava em solo canadense.

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Imigração ok, fui procurar onde pegaria o ônibus que me levaria até a estação de metrô Kipling. Já tinha pesquisado como ir do aeroporto ao centro de Toronto antes de sair de NY e, como o aeroporto é muito afastado, optei pela dobradinha ônibus + metrô (além do mais, adoro conhecer os meios de transporte públicos dos lugares que visito. Ao menos, até o dia em que eu for à Índia). Logo de cara, vi como os canadenses são, realmente, muito educados e solícitos. Mais do que em qualquer outro lugar que já visitei. Do nada alguém olha para você e diz: ‘Have a nice day’! Isso faz o dia de qualquer pessoa bem melhor!

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Desci na estação College, já na rua da minha pousada, que ‘ficava’ na Carlton Street. Essa palavra – ficava -, assim, no passado e entre aspas, nunca teve um significado tão intenso. Fui andando até o endereço da pousada e, chegando lá, me deparei com uma casa em obras. Isso mesmo. Latas de tinta, maquinário, pintores e nada de móveis e nem sinal de pousada. Entrei na casa e perguntei para onde eu deveria me dirigir, imaginando que se tratava apenas de uma reforma. Me deu pena da cara que o rapaz me olhou. Com essa mesma cara, ele me disse que havia comprado a casa há dois meses e não fazia ideia de como poderia me ajudar. (Um minuto de silêncio…). Pena mesmo ele deve ter sentido de mim, pois, a única frase que ele conseguia dizer era: I’m chocked’. A essa altura, já me perguntava até que ponto os canadenses eram mesmo assim, tão gentis, educados e, neste caso, confiáveis.

Diante dessa situação, só me restou manter a calma, apesar das batidas aceleradas do coração, e procurar um novo hotel para me hospedar. Lembrava de, no trajeto da estação de metrô até a pousada fictícia, ter visto algumas opções. Fui ao primeiro deles, no qual tinha vaga para as quatro noites que eu ficaria em Toronto. Contei minha situação para a recepcionista, que ficou horrorizada por não terem me avisado do fechamento da pousada. Ela ainda tentou entrar em contato por telefone, mas o número já não existia mais. A recepcionista foi tão atenciosa comigo, que, mesmo se o valor da estadia no hotel fosse o triplo do que eu pagaria na pousada (sorte que o pagamento seria feito no momento do check-in), eu ficaria lá! Então, já achando todos eles gentis novamente, fui para meu quarto, por sinal, excelente, e, em pouco tempo, já tinha esquecido o estresse inicial e parti para a rua. Não sem antes reservar com o concierge do hotel um passeio a Niagara Falls para o dia seguinte. Acho que, após o susto da chegada, queria passar um dia sem precisar pensar e planejar nada, me dando ao trabalho de apenas seguir as instruções de um guia turístico.

DSCN0320 Meu lindo e tão sonhado quarto

Pronto, pernas para que te quero, Toronto. A duas quadras do meu hotel ficava a rua Yonge Street, uma das principais da cidade e considerada por muitos a mais longa rua do mundo, com 1.930 quilômetros. Lá é onde se vê de tudo e de todos. Centenas de lojas e restaurantes para todos os gostos e bolsos. Pessoas vindas dos quatro cantos do mundo subindo e descendo. Lojinhas de souvenirs, de roupas, de bugigangas, artistas de ruas se apresentando. No cruzamento com a Dundas Street você se depara com uma ‘mini Times Square’, com dezenas de telões de LED e um agito incrível.

DSCN0322 Yonge Street

É lá também que está a entrada principal para o Eaton Centre, um enorme centro de compras que cresce para baixo do solo. A maior parte do mall é subterrânea, devido ao frio nos dias de inverno. Lá há uma enorme praça de alimentação, com opções de pratos de todo o mundo.

DSCN0325 Eaton Centre

Saindo do Eaton Centre, continuei descendo a Yonge Street sentido lago Ontario. No trajeto, fui admirando a bela e moderna cidade, passando pelo Financial District, com predominância de aço e concreto e ruas congestionadas. Por todo o percurso, gente apressada e turistas encantados, tirando fotos de cada esquina. Atravessei a Front Street e cheguei a Waterfront, que beira o lago Ontario. Lá é possível pegar um barco para passear pelo lago ou então visitar as Toronto Islands, pequenas ilhas interligadas onde se encontram parque de diversão, zoológico e outras atrações. Não animei de ir até lá, pois, além da enorme fila predominantemente formada por crianças, preferi percorrer a Waterfront a pé, conhecendo cada cantinho daquela cidade que já havia me conquistado. Parques, trilhas, marina, pista de corrida (obaaa!) e bike, bares e restaurantes fazem do local o ponto mais agradável de Toronto, principalmente no verão e com dias ensolarados.

DSCN0335 Waterfront

DSCN0348 Urban Beach com a CN Tower ao fundo

Outro ponto a favor do passeio em Waterfront é a vista constante da principal atração da cidade, a CN Tower, torre mais alta do Canadá, com 553 metros, e que perdeu o título da mais alta do mundo (considerando a antena no topo) em 2010, para a Canton Tower, na China, e, posteriormente, em 2012, para a Tokyo Sky Tree, no Japão. Não resisti e fui até lá para aproveitar a vista de dia e à noite, já que eram 19h e o céu ainda estava claro. Comprei meu ingresso e subi. Caso você vá ao 360 Restaurant, que fica lá no topo, não é preciso pagar para subir, no entanto, é preciso fazer reserva com antecedência. Caso não vá ao restaurante, deve-se comprar o tíquete.

DSCN0361 A imponente CN Tower

A diversão começa no elevador panorâmico, que sobe 346 metros em 58 segundos. Lá em cima as atrações continuam. Você pode admirar Toronto em 360º pelas amplas janelas de vidro ou pelo terraço cercado por grade, onde o vento é intenso, te deixa descabelada (mulheres, prendam as madeixas!) e te faz andar mais rápido ou mais devagar dependendo da sua direção. Eu adorei e achei que estava participando de uma propaganda de shampoo!

DSCN0378 Lake Ontario visto da CN Tower

IMG_5700 Descabelada

Há ainda o chão de vidro, que dá muuuuita aflição no começo, mas logo se torna inevitável tirar milhares de fotos, deitar, filmar, caminhar e até pular.

IMG_5679 Superando a aflição no chão de vidro

Para os mais corajosos, o Edge Walk é o grande desafio. Trata-se de uma caminhada ao ar livre, na beiradinha da torre, onde as pessoas ficam presas por um cabo de aço, sem apoio para as mãos, e circulam o topo da CN Tower. A aventura é feita em grupos de até seis pessoas e dura cerca de 30 minutos. Para isso, é pago o ingresso à parte. Confesso que fiquei tentada a me aventurar, cheguei a iniciar a compra do ingresso, mas, no último segundo, fui sensata e decidi ter a certeza de que desceria da CN Tower sã e salva, pois ainda tenho muitos retalhos do mundo para costurar, né?

DSCN0598 Há quem encare o Edge Walk

Por fim, a CN Tower tem ainda o Spin, que te leva ao ponto mais alto da torre. Independente de ir ou não a todas essas atrações da torre, esse é um passeio imperdível para quem visita Toronto. A vista é linda, com prédios, ilhas, lago Ontario e um maravilhoso por do sol. Quando as luzes da cidade se acendem então, fica ainda mais lindo.

IMG_5714 Vista noturna de Toronto

Me deixei levar pela beleza do visual e, quando me dei conta, já eram 21h30 e me peguei pensando em como voltaria para o hotel, já que o trajeto era consideravelmente longo para uma mulher percorrer a noite e sozinha. Pensei em pegar um ônibus, mas, ao chegar à rua, vi várias pessoas andando e fui caminhando também, até chegar a uma praça e ouvir risadas de uma multidão. Com meu faro jornalístico e curiosa ao extremo, claro, fui até lá para ver qual o motivo da graça. Havia um cinema ao ar livre! Uma enorme tela em plena praça. O filme, lançamento do ano: “As patricinhas de Beverly Hills”! Mas o ambiente estava tão agradável, que me juntei aos telespectadores. Centenas de pessoas assentadas em cadeiras e no chão, com lanches e bebidas, aproveitando uma agradável noite de verão (nesta época do ano, os canadenses ficam o máximo de tempo nas ruas para aproveitarem as raras altas temperaturas). Após o filme, às 23h30, continuei calmamente minha caminhada em pleno centro de Toronto, pensando se algum dia será possível fazer isso no Brasil.

DSCN0418 Burburinho da Yonge Street

Niagara (Falls, região e on-the-Lake)

No dia seguinte, às 8h45, lá estava eu na recepção do hotel pronta para ir a Niagara Falls. O concierge havia dito que o dia seria lindo e, realmente, estava! Como era eu e eu mesma, o motorista da van da agência King Tours ((http://www.kingtours.ca/) sugeriu que eu fosse no banco da frente. Acabei aceitando o convite para ir fazendo mil perguntas sobre a cidade e sobre Niagara Falls, além de ser mais uma oportunidade para ‘improve my English’! Papo vai, papo vem, ele me contou a história dele: de Sri Lanka, já morou na Alemanha, tem amigos no Brasil e vive há 15 anos em Toronto, com vontade de voltar para a Alemanha e não sair de lá nunca mais. Também contei um pouco sobre mim, o que faço, minhas viagens, a vida no Brasil (que, claro, escondi boa parte dos podres, né? Para os estrangeiros, temos sempre que destacar o lado bom!).

DSCN0433 Vinícola em Niagara

Fui admirando o trajeto de 1h30, mas que conta com algumas paradas pelo caminho. A região de Niagara é o berço dos chamados ‘icewines’, vinhos feitos com uvas colhidas durante o inverno, quando os vinhedos estão cobertos por neve. São vinhos tintos, rosè, brancos e espumantes. Então, o tour incluiu uma parada em uma vinícola, a Pillitteri Estates Winery, onde aprendemos um pouco sobre a bebida e fizemos degustação do tinto e do branco, ambos mais doces do que o vinho normal (um perigo!). São cerca de 80 vinícolas na região e todas elas muito bem estruturadas, com lojas, tours guiados e restaurantes que trabalham com menus harmonizados. Não deixe de experimentar as frutas locais, todas orgânicas e muito saborosas. Melhor pêssego que já comi na vida! Elas sempre ficam à venda em lojinhas na beira da estrada e nas vinícolas.

DSCN0426 Frutas frescas e orgânicas

Para os amantes do vinho, uma boa dica é alugar um carro e fazer o próprio itinerário, conforme o Wine Route Planner (http://winecountryontario.ca/wine-route-planner).

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De lá, nossa próxima parada foi na cidade mais fofa do Canadá. Isso mesmo, eles próprios a definem como The Prettiest City in Canada! Niagara- on-the-Lake (assim, com hífen) parece ter sido tirada de um conto de fadas. Localizada na junção do rio Niagara com o lago Ontário, a cidade é minúscula, com uma avenida principal, que conta com a linda Torre do Relógio ao centro, e outras ruelas cortando-a, sempre emolduradas por lindos jardins.

IMG_5758 Niagara-on-the-Lake

As casinhas, todas pequeninas, antigas e bem cuidadas, dão lugar a lojinhas, hotéis, restaurantes, lojas de artesanato e produtos locais e as tentadoras docerias, que nos atraem pelo aroma ao passar na porta. Eu mesma fui atraída pela cheesecake de chocolate com peanut butter da Niagara Home Bakery, acompanhada por um belo café expresso (ô, saudade!). Nas ruas que cortam a avenida principal estão as casas dos moradores, igualmente lindas e bem cuidadas. Nossa passagem por lá foi rápida, pois ainda tínhamos muitas atrações pela frente. Mas vale uma visita com mais calma à região, que já está no meu caderninho de lugares que pretendo voltar!

IMG_5779 Niágara-on-the-Lake

Depois, fomos rapidamente ver o Relógio de Flores, já em Niagara Park. É lindo, feito em meio a belas e bem cuidadas flores, com grandes ponteiros. Mas nada estonteante. Logo em frente, mais bonito do que o relógio é a vista que temos do rio Niagara, sendo a margem oposta território americano.

DSCN0462 Relógio de Flores

Mais uma vez, voltamos para a van. Meu lugar no banco da frente já estava ocupado por uma senhora e então, fui obrigada a encontrar um lugar lá atrás. Agora estávamos a caminho das falls, atração principal do passeio, a qual eu já estava ansiosa para ver logo. A meu lado havia um rapaz, que, percebendo que perdi meu local privilegiado na van, puxou assunto. Acabamos ficando amigos e fazendo o passeio juntos, o que foi ótimo, pois ficaríamos em Niagara Falls por 2h30 e, como a cidade é minúscula, ter uma companhia para ficar por conta do à toa foi ótimo!

Ah sim! Cidade! Niagara Falls não é apenas o nome do conjunto de cataratas. É também o nome de uma cidade que fica, literalmente, às margens das quedas. E tal localização, logo ali, ao lado das cachoeiras, tendo as falls como pano de fundo, me deixou impressionada. Sempre que ouvia falar em Niagara Falls, imaginava que elas fossem em meio a um grande parque, cercadas por árvores e que fosse preciso fazer uma caminhadinha para chegar até lá. Nunca tinha me dado ao trabalho de olhar no Google Maps ou de pesquisar mais a respeito da região. E, quando cheguei e vi uma mini Las Vegas, fiquei atônita. E percebi que muitas pessoas tiveram a mesma reação que eu. A cidade de Niagara Falls é bem moderna, repleta de cassinos, restaurantes, pubs, parques infantis e hotéis. Ou seja, criaram-na ali aproveitando a grande vocação turística do local, assim como Vegas em meio ao deserto. Para mim, foi a descoberta do ano!

niagara-falls Vista privilegiada dos moradores de Niagara Falls

Bom, no nosso tour podíamos escolher uma entre as duas opções de passeio para ver as falls de perto. Uma delas é o Maid of the Mist, um enorme barco que percorre o rio em direção às quedas d´água e a outra é o Behind the Falls, que você passa a pé por trás das cataratas.

Por sugestão da maioria das pessoas, optamos pelo Maid of the Mist. Como ele vai bem perto das quedas, recebemos uma capa de chuva, pois não tem como sair de lá seco. O barco, de dois andares, vai bem cheio e, claro, fomos lá em cima, na parte descoberta e bem na beirada, para que pudéssemos ter uma vista privilegiada. Mas demos sorte de sermos os primeiros da fila para entrar no barco, pois, assim, pudemos escolher a melhor localização. O percurso é bem rápido, leva apenas 20 minutos, mas o suficiente para encharcarmos. Por isso, atenção com as câmeras fotográficas e celulares.

Antes mesmo de entrarmos no barco, já sentimos os respingados em nossa pele, tamanha a força da água caindo. O passeio começa indo próximo às cataratas americanas e de Bridal Veil, que são as quedas mais retas, onde podemos apreciar a beleza da queda com 323 metros de largura. De lá, já seguimos para em direção à queda canadense, a mais curvada e com queda mais forte, a qual conta com 792 metros de largura. É chegando ali que começa a ‘tempestade’. Essa é a sensação que temos. É incrível ver a força da natureza tão de perto. A água cai e já evapora, formando uma nuvem enorme em frente à catarata. Depois o barco dá meia volta e retorna ao deck, o qual já está com uma enorme fila formada para o próximo passeio.

DSCN0483 Passeio no Maid of the Mist

Mesmo com a capa de chuva, todos saíram de lá com os pés encharcados. Bom que o dia estava bem quente e ensolarado, o que em um minuto fez com que os pés estivessem secos novamente. Mas quem se importa com isso, não é? Afinal, é Niagara Falls!

Subimos e fomos caminhar pela cidade. Passamos pela Centre Street, que é uma espécie de mini Las Vegas misturada com mini Hollywood, com muitas luzes e vitrines de lojas coloridas, lanchonetes e restaurantes. Mas tudo é uma diversão. O Burger King, por exemplo, conta com um enorme Hulk na fachada. Há também o MGM Studios Plaza, com o grande leão dourado na MGM nos dando boas vindas. Há o Guinness World Records Museum, do conhecido Guinness Book, que apresenta alguns dos recordes mundiais; o Movie Lands, museu de cera com bonecos dos artistas e uma série de outras atrações. Um prato cheio para crianças. Um pouco mais distante dali, há ainda uma outra atração interessante, à qual não fui, mas me bateu um arrependimento depois: o Skylon Tower, prédio que oferece a vista panorâmica mais alta das cataratas.

P1050727 Fachadas divertidas em Niagara Falls

Como a cidade é bem pequena, o passeio foi rápido e optamos por comer algo em um pub, o Jack’s Cantina, esquina da Cantre Street com a Ellen Avenue, onde experimentei mais uma cerveja canadense, a Alexander Keith’s Pale Ale. Uma delícia, com sabor de trigo. A essa altura, eu já achava que minha língua pátria era o inglês. Meu amigo falava muito rápido e, algumas palavras eu fingia que entendia e, assim, a conversa fluiu.

Já quase na hora de voltar para a van, caminhamos pelo Queen Victoria Park, localizado na avenida Niagara Parkway, que beira o rio Niagara, onde se localizam as falls. Fui até a beirada admirá-las pela última vez e retornamos para Toronto.

À noite, já com fome, procurei por um lugar para comer e experimentar novas cervejas canadenses. Acabei encontrando, por acaso, um ótimo pub que não pode deixar de ser visitado por quem for a Tortonto. Chama C’est What? e fica na Front Street, quase na esquina com Church. A entrada é bem pequenina, pois ele fica no subsolo. Com luzes baixas e mesas de sinuca, é frequentado por pessoas que moram na cidade. O interessante é que o bar produz suas próprias cervejas, que trazem nas receitas ingredientes como café, chocolate, laranja, gengibre. Vale a pena assentar no balcão, fazer amizade com os atendentes e ir pedindo sugestões de quais experimentar, caso não tenha pique para encarar todas elas.

Por fim, hora de dormir e recuperar as energias para mais um dia nessa incrível cidade.

IMG_5990 Front Street, perto do pub C’est What?

Let’s explore Toronto

No dia seguinte à minha ida a Niagara Falls, foi a vez de visitar o Queen’s Park, que recebeu esse nome em homenagem à rainha Victoria, do Reino Unido. Fui caminhando pela College Street, onde se encontram diversos hospitais e clínicas de saúde, até chegar à University Avenue. De lá já avistei o belo prédio do parlamento de Ontario, datado de 1892, o qual fica no meio do parque.

DSCN0503 Parlamento de Ontario

Uma das mais agradáveis áreas da cidade, é lá também que fica a Universidade de Toronto, ou U of T, que concentra faculdades, hospitais e centros de pesquisas. No campus pode-se e deve-se entrar para admirar a arquitetura dos edifícios, em estilos neogóticos e românicos, construídos entre 1858 e 1929. O mais bonito deles é o principal prédio da Universidade, que abriga a Univesity College. Logo ao lado está um memorial em homenagem aos alunos mortos nas Guerras Mundiais. Quando passei por lá, alunos jogavam beisebol, aproveitando a bela manhã de sol.

DSCN0514 Belo edifício da U of T

Saindo do campus, segui para a parte de trás do parlamento, onde encontra-se a maior área verde do Queen’s Park. Como era verão, pessoas aproveitavam para assentarem à grama para descansar, ler um livro. Algumas corriam e outras, como eu, caminhavam sem rumo, observando como é agradável aquela cidade. Seguindo pela Avenue Road, passei pelo Royal Ontario Museum, o principal da cidade, que detém coleções de diversos objetos divididos em paleontologia, mineralogia, zoologia, geologia, sem contar com as antiguidades, arte europeia e história canadense.

DSCN0584 Royal Ontario Museum

Saindo do museu, cheguei à Bloor Street, no bairro Yorkville, uma das mais movimentadas de Toronto, que abriga uma série de empresas canadenses e lojas de grife, lugar perfeito para quem gosta de comprar. Lá estão marcas como Prada, Louis Vuitton, Gucci, Chanel. Mas há também opções para quem prefere gastar menos e comprar mais, como H&M, Nike, American Apparel, Forever 21, e outras. Na rua há ainda uma série de galerias de arte que merecem ser visitadas, assim como cafés com varandas viradas para as calçadas, ideais para repor as energias e assistir ao desfile de modas pela via movimentada.

DSCN0523 Bloor Street

Voltando para a Younge Street, desci até a Front Street e fui visitar o St. Lawrence Market, nomeado pela National Geographic o melhor Mercado de comida do mundo. E não é para menos. Pelos seus corredores é tarefa difícil resistir a tantas tentações.

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Há opções tanto para quem quer comprar alimentos frescos para preparar em casa, como verduras, legumes, carnes, orgânicos, laticínios, quanto refeições para serem deliciadas na hora, no terraço ao redor do antigo edifício. São vários sanduíches, pizzas, bolinhos de caranguejo, fish and chips, sushi, doces e mais uma infinidade de comidas de dar água na boca. Não deixe de experimentar os bagels da banca St. Urban Bagel Bakery. Minhas opções foram o de blueberry e o de cream cheese puro, em pão multi-grãos. Deliciosos!

DSCN0534 Bagels – difícil escolher um só!

Depois da minha visita ao St. Lawrence Market, fui caminhando pela Front Street até a Parliament Street, onde cheguei a uma das áreas mais interessantes de Toronto: Distillery Historic District. Antiga região da cidade, lá funcionava uma destilaria, a Gooderham and Worts Distillery, fundada em 1832 e considerada a maior do mundo no final dos anos 1860.

IMG_5810 Distillery District

Mais de um século depois, após a área ter sido abandonada, foram construídos dois condomínios residenciais e a região foi revitalizada. Hoje, o local está repleto de lojas de designers, artesanatos, galerias de arte, cafés e restaurantes, onde se pode entrar apenas pedestres, o que a torna uma região super agradável para um passeio no final da tarde ou para curtir a noite ao som de bandas que se apresentam ao vivo. E o local é lindo, com os prédios vitorianos mesclando tijolos alaranjados e ferro fundido. Claro que não resisti e passei boas horas da minha tarde por ali, olhando o movimento e experimentando uma gelada Molson Canadian, uma cerveja larger bastante saborosa, comum no Canadá, como as nossas Brahma e Skol. Depois continuei experimentando-a em diversas outras ocasiões agradáveis como aquela no Distillery! 😉

DSCN0572 Distillery e sua antiga decoração

Próxima parada: Queen Street. Uma muvuca sem fim no cruzamento com a Yonge. Porém, quando cruza a University Avenue, chega à parte mais bacana, o fashion district, onde se pode encontrar lojas de todos os estilos, que vão do alternativo até as de marcas conhecidas, porém, com preços mais acessíveis, diferentemente da Bloor Street. Com certeza, caminhando pela rua você irá encontrar algo que é a sua cara. Isso sem contar com a infinidade de bares descolados, cafés e afins.

DSCN0324 Cruzamento da Yonge com a Queen Street

Na ida para o hotel, senti fome. Mas não queria mais comer comida chinesa, massa e, muito menos, sanduíche, o que fiz questão de manter de fora da minha alimentação de férias em países norte americanos. E não é que, do nada, senti uma enorme curiosidade de entrar em um supermercado em frente ao meu hotel, chamado Loblaws. Foi a melhor coisa que fiz! Para quem mora em Belo Horizonte e conhece uma rede chamada Verde Mar, pode ter uma breve ideia do que estou falando. Digo breve, pois trata-se de um Verde Mar três vezes melhor, no quesito variedade. Lá se vende de tudo, fresquinho, orgânico, além dos produtos de um mercado comum. Fiquei um pouco perdida. São diversas baias de comidas preparadas na hora: pizza, sanduíche, massas, saladas, japonês, frios, etc. Você se serve e paga pelo quilo. Fiquei com a salada. Mas prometi a mim mesma que, no dia seguinte, voltaria para experimentar uma massa e sushi. Também levei para comer mais tarde um pote de iogurte grego com berrys, que é como países de língua inglesa se referem à frutas como blueberry, strawberry, cramberry e blackberry. Um achado e tanto, logo na frente do meu hotel. Fui embora feliz da vida, descansar da maratona de caminhada do dia e descansar ao máximo, pois, o dia seguinte seria meu último dia inteiro em Toronto, e a saudade já começava a bater.

IMG_5823 Delícias do Loblaws

O sábado amanheceu com um sol incrível e um clima super agradável e fui então fazer o que eu tinha prometido: correr em todas as cidades que eu visitasse na viagem! Coloquei minha roupa, meus tênis (que faziam sucesso por onde eu passava, devido às tantas cores em um único calçado!), e fui embora, rumo à minha corridinha de Toronto. Desci até Harbour Front e comecei a corrida do Terminal do Ferry.

DSCN0329 Lake Ontario visto de Harbour Front

Passei por toda a beira do Lake Ontario, seguindo pela Lake Shore Boulevard. Pude ter cada vista linda de Toronto, que valeu cada quilômetro corrido! Costumo dizer que, correndo, podemos conhecer lugares que, caminhando, certamente não conheceríamos, pois não iríamos até lá simplesmente andando.

IMG_5847 Presente da corrida: essa linda vista

Depois voltei até a Younge Street, quando resolvi seguir até o Chinatown, antes de chegar a meu próximo destino: o Kensington Market. Apesar de não ser fã dos bairros chineses, é sempre interessante conhecê-los! E não é que o de Toronto me surpreendeu? Um dos mais organizados e limpos de todos, com diversas lojinhas como o de todos os outros, daquelas que vendem de tudo a preços baixíssimos.

IMG_5855 Chinatown torontoniano

Mas passei mesmo só para dar uma olhada e segui para o Kensington Market, o bairro que reflete a diversidade cultural de Toronto. O lugar é completamente despojado, com banquinhas espalhadas pelas ruas, que vendem produtos de diversas partes do mundo. Brechós, quitandas de frutas e verduras, lojas de itens para caça e pesca, açougues e até mesmo lugares onde é permitido fumar maconha (apesar de não vender a erva, pois no país o consumo é proibido).

IMG_5857 Kensington Market

A região é frequentada por hippies, estudantes, rastafáris e todas as tribos. Saindo da rua principal, onde se concentram as lojas, dei uma volta pelo bairro, também com casas em estilo vitoriano, apenas para conhecê-lo e adorei a região.

IMG_6001 Bairro repleto de ruas agradáveis

Porém, minhas pernas já não tinham mais forças para andar e era hora de ir para o hotel, organizar minha bagagem, pois, no dia seguinte à tarde, eu já mudaria de ares novamente. Ah, o Loblaws foi parada obrigatória antes de ir para o hotel! Quero esse supermercado para mim!

Na manhã de domingo, fiz meu check out e fui despedir de Toronto. Passei pela Casa Loma, um museu construído em um castelo em estilo neo-romântico, o qual serviu de residência para um financista no começo da década de 1910. Hoje, são mantidos os cômodos da antiga “casa”. Porém, como meu tempo era curto, preferi não entrar e fui me despedir do meu local favorito em Toronto: Harbour Front, onde escolhi um restaurante com varanda voltada para o Lake Ontario e pedi uma Molson para fechar com chave de ouro. Por fim, subi a Yonge Street calmamente, pensando se as outras cidades que eu visitaria me surpreenderiam tanto quanto Toronto me surpreendeu! Mas já era hora de dizer: Québec, aí viu eu!

IMG_5988 See you, Toronto!

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De Minas ao Peru sobre duas rodas

Vamos DE CARONA, ou melhor, na garupa, para o Peru? Quem nos conta sobre esta aventura é o motociclista Bruno Affonso, que partiu de Minas Gerais para Machu Picchu sobre duas rodas, na companhia de dois amigos!

“Motociclista e viajante por paixão, uma combinação que considero mais que perfeita, eu e dois amigos, Tielo e Rosalvo, decidimos, em 2012, visitar Machu Picchu e seu vale sagrado, no Peru. Até então, a única certeza é que a viagem seria nos meses de abril e maio de 2013, pelo favorecimento do clima (passaríamos pela Cordilheira dos Andes, que, no inverno, não raro, fica interditada por conta da neve que cobre a região). Até sairmos de casa, o roteiro ainda não estava plenamente definido. O que parecia desorganização, nada mais era que um ingrediente fundamental em uma viagem de aventura: a incerteza!

01

Logicamente tínhamos algumas rotas pré-definidas, o que chamávamos de planos A, B, C… O mais difícil foi decidir qual deles adotar. Havia limitação de tempo, dinheiro e grande variedade de pontos turísticos. Não daria para ver tudo e alguma coisa teríamos que sacrificar.

Encontramo-nos em Belo Horizonte, no dia 13 de abril, e seguimos sentido Distrito Federal, pela rodovia 040. Nosso objetivo era rodar sempre durante o dia e chegar o mais longe possível. Chegamos ao anoitecer em Pirenópolis, em Goiás, cidade histórica e que algumas pessoas comparam com Tiradentes, em Minas Gerais. Embora não tenha o mesmo charme e glamour, não faz feio. Uma rua lotada de bares, lojas e restaurantes faz a alegria do turista. Jantamos em uma pizzaria ótima, chamada Trotamundus, que, além de oferecer pizzas deliciosas e quadradas, a um preço honesto, faz a pizza em uma velocidade assustadora. Para quem estava morrendo de fome, como nós, foi uma excelente pedida.

02

Partimos no dia seguinte cedo em direção à Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. Logicamente, não perderíamos a oportunidade de conhecer uma das três chapadas do Brasil (tem também as chapadas Diamantina, na Bahia, e dos Veadeiros, em Goiás). Paramos para almoçar em Barra do Garças, exatamente na divisa entre os estados de Goiás e Mato Grosso, no restaurante Encontro das Águas. Obviamente, comemos peixe, prato típico da região, o qual estava maravilhoso. Valeu a pena. De lá, seguimos até Campo Verde onde dormimos, para conhecer a Chapada no dia seguinte.

04

Cedo, já estávamos no mirante do centro geodésico da América do Sul. A paisagem é de tirar o fôlego e ótimo para contemplar a natureza e abusar nas fotografias. Visitamos também a cachoeira Véu da Noiva, o restaurante/mirante Morro dos Ventos e o Portão do Inferno. Todos próximos a rodovia que nos levaria até Cuiabá, capital mato-grossense. Por lá, almoçamos em uma churrascaria rodízio, a Boi Grill. Na realidade, esperava mais do local, porém, classificaria como uma churrascaria honesta, com carne boa e um excelente atendimento. Passamos também por Cáceres e dormimos em Pontes e Lacerda.

06 Centro geodésico da América do Sul

07

Mais um dia chegou e este foi de muito trabalho. Seguimos por estradas esburacadas, calorentas e com pouca estrutura turística. Almoçamos em um restaurante à beira da estrada. O barato foi por conta de termos sido abordados por pessoas simpáticas, no município de Ouro Preto do Oeste, que se interessaram muito pelo nosso passeio e o divulgaram para a comunidade local, falando um pouco de nós e de nossas motos. Insistiram para que ficássemos no município, mas, como corríamos contra os quilômetros, resolvemos seguir e pernoitar em Ariquemes, no estado de Rondônia.

No dia seguinte, continuamos o trajeto passando direto por Porto Velho, capital de Rondônia, tendo em vista que perderíamos um dia de viagem caso resolvêssemos conhecer a cidade, sobre a qual várias pessoas nos falaram ser dispensável. Atravessamos o rio Madeira de balsa, bem na fronteira entre Brasil e Bolívia, onde recebemos valiosas orientações do comandante da PM local, já que, literalmente, estávamos no mesmo ‘barco’. Ele nos orientou a evitar a Bolívia, por questões de segurança. Apontando para uma bandeira da Bolívia, afixada do outro lado do rio, nos contou também que havia monitoramento contínuo pelo exército boliviano, pois, recentemente, brasileiros a trocaram por uma bandeira do Flamengo. Sem comentários!

09 Na balsa

10 Bandeira da Bolívia

Já em Rio Branco, capital do Acre, nos surpreendemos com a cidade. Bonita e agradável! Ficamos no Hotel Pinheiro, que é um dos melhores (não muito caro) e fica em frente ao Hotel Inácio, também bom, ambos do mesmo dono. Pelo fato dele ser motociclista, nos fez um preço especial. Ficamos um dia a mais para dar uma descansada e aproveitar para lavar algumas roupas e preparar para a parte mais esperada da viagem. Visitamos alguns pontos turísticos da cidade e a parte próxima à zona portuária, onde existem agradáveis bares com música ao vivo. Encontramos mais dois motociclistas, que estavam no mesmo hotel e iriam também a Machu Picchu. O grupo aumentou e viajamos em cinco motos.

12 Rio Branco

Dia da chegada ao Peru. Saímos cedo e pegamos mais um trecho de estradas esburacadas até Assis Brasil, fronteira dos países. Fomos bem atendidos na alfândega e, depois de uma burocracia de pouco mais de uma hora, seguimos viagem até Puerto Maldonado.

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O clima era outro. A alegria nos tomava de ter chegado até ali, depois de seis dias de viagem e milhares de quilômetros, apesar ainda de termos muito chão pela frente.. O trânsito nos assustou um pouco e tivemos vontade de andar de ‘tuc-tuc’, um triciclo com uma cabine, mas meu tamanho me impediu de desfrutar desta emoção.

16 Tielo no tuc-tuc

Ficamos num hotel muito bom e com bom preço, o hotel Cabaña Quinta. Ali, vimos o quanto pagamos caro no Brasil. Para me sentir um verdadeiro Peruano, provei a cerveja local, Cuzqueña. Sensacional.

15 Uma linda criança peruana

Acordamos ansiosos, pois, neste dia, cruzaríamos a Cordilheira. Por uma dádiva, pegamos neve quando atingimos o topo. Quem viveu praticamente a vida inteira no Rio de Janeiro pode imaginar a emoção daquele momento. Um frio suportável. Imagem de filme. Simplesmente, ficamos bobos com o que víamos.

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Folhas de coca, adquiridas antes, nos ajudaram a vencer o mal da altitude, conhecido lá como ‘soroche’. Elas amenizam os efeitos nada agradáveis desta mudança abrupta de pressão atmosférica e ar mais rarefeito. Algumas pessoas nada sentem. Outras, ficam acabadas. O organismo e o psicológico têm fatores decisivos também. O método certo de ingerir as folhas de coca aprendemos depois, com o nosso guia Holger Garcia em Machu Picchu, que atendia pelo apelido de ‘amoroso’ (tel: 984 725544): devemos selecionar aquelas mais verdes e limpar as pequenas impurezas, com a mão mesmo. Tirar o delicado talo da folha, dobrar ao meio no sentido vertical e vir dobrando, até virar um minúsculo quadrado. Colocar de dez a quinze folhas na parte externa da gengiva, dos dois lados, bem atrás da boca. Respirar lentamente e evitar atividade física intensa ajuda bastante. O nosso amigo Tielo colocava as folhas na boca como se fosse uma girafa. Tentei e me senti mal. O gosto é forte e o odor característico. A forma que foi ensinado tornou o processo ser menos indigesto. Tudo é uma questão de saber como fazer. Além disso, o povo de lá considera tal ato um ritual e fazer de qualquer maneira pode ser visto como desrespeito. Eles garantem que se pode andar um dia inteiro sem haver necessidade de ingerir água mascando a erva. Informação muito útil para quem pretende atravessar uma Cordilheira de moto, como nós, onde tudo pode acontecer.

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Chegamos em Cuzco a noitinha. Foi uma luta encontrar um hotel bom, barato e com ‘cochera’. O trânsito parecia que ia piorando à medida que a cidade ia aumentando. Cuzco está situada a 3.400metros de altitude. Ali, os efeitos da altitude, já são mais notórios. Dor de cabeça, náusea, cansaço excessivo. Para quem já teve ressaca, não é nada de outro mundo. Meu amigo Rosalvo insistia para tomar um remédio ‘genérico’ que ele comprou numa farmácia, sem a descrição dos componentes ativos. Resisti, mas, ao final, me rendi. Arrependimento de não ter tomado antes.

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Cuzco é uma cidade com potencial turístico absurdo. Tem de tudo e todos. A culinária peruana é um caso à parte. Muito saborosa e saudável. Vários museus, parques, restaurantes. Programas para todos os gostos e bolsos. Lá é o principal ponto para quem vai visitar Machu Picchu. Foi onde nos separamos dos amigos paulistas que, por obra do acaso, fizeram parte de nossa viagem. Deixo aqui meu abraço aos irmãos de estradas Wellington e Guilherme.

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Resolvemos deixar as motos no hotel e fechar um pacote para Machu Picchu, indo de van até uma represa e, de lá, caminhando por cerca de duas horas. A volta foi de trem até Ollantaytambo e de van/táxi até Cuzco. O trem encarece muito o passeio, mas foi ótimo não voltar de van.

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Nunca passei pela estrada da morte na Bolívia, mas acredito que o trajeto que a van fez se assemelha a ele, e muito. Lugares com desfiladeiros enormes à beira da rodovia e lugares onde só passava um carro, com muitas curvas, o que fez com que o Tielo passasse muito mal. A paisagem sim, valeu muito a pena. Mas fico na dúvida se faria de novo de van. De moto, eu arriscaria. A caminhada, por sua vez, é muito leve e agradável. Ficamos em um dos inúmeros hostel’s no município que leva o mesmo nome do local: Machu Picchu. O único ponto desagradável na localidade é a umidade muito alta. A camisa chega molhada e assim permanece por dois dias. Por lá, a hospedagem é muito barata, logo, poderíamos ter ficado em um lugar melhor sem comprometer o orçamento. A altitude, para quem estava em Cuzco, é moleza! Voltamos a conseguir respirar.

23 Trajeto para Machu Picchu

Sobre Machu Picchu não vou discorrer muito, pois vários sites se encarregaram disso, alguns, de forma exaustiva. Vou me limitar a dizer que a paisagem e a energia do lugar são extraordinárias. É um lugar que, necessariamente, todos deveriam visitar ao menos uma vez na vida. Com certeza, voltarei para explorar mais o local, não me limitando aos passeios básicos e aprofundando em caminhadas. Foi um momento transcendente. Depois de uma caminhada, comi um prato típico do Peru e maravilhoso: ceviche, que nada mais é do que peixe cru marinado no limão. Os adeptos de comida japonesa podem nadar de braçada. Só tome cuidado com uma pimenta que, dependendo do restaurante, é cortada como um tomate. Tomar um copo de chumbo derretido deve ser mais agradável.

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Voltamos a Cuzco, pegamos a moto e decidimos que iríamos até Lima, pelo pacífico. Várias pessoas nos deram dicas para chegar até lá e concluímos que o trajeto mais prático seria passando por Nazca, mesmo que no mapa pareça não fazer sentido. É que lá há muita montanha e, de um ponto a outro, andaríamos o triplo da distância caso fosse uma reta. Seguimos até onde deu, em Abancay. Ficamos no Hotel Turista, muito bom e muito barato. Eu já estava ficando mal acostumado. Culinária invejável e cerveja cuzqueña gelada! Estava no paraíso. A cidade em si não tem muita coisa.

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Na sequência, passamos por Puquio e chegamos a Nazca. Assustamos com o assédio de pessoas nos oferecendo hotel, a ponto de beirar a indelicadeza. Tivemos que ser contundentes com alguns para que nos deixassem decidir em paz, como fizemos a viagem inteira. Rosalvo não gostou da energia da cidade e ficou louco para ir embora. Ele, definitivamente, ficou angustiado e, embora eu não tenha sentido tal ‘vibração’, confiei no instinto dele e aceleramos no dia seguinte cedo. Não pegamos o voo para ver as famosas linhas de Nazca (desenhos feitos no chão do deserto, em formatos de animais e figuras humanas, designados Patrimônio Mundial pela Unesco), mas as avistamos por um mirante improvisado e não achei nada de outro mundo. Acredito que é um programa para quem não está com o dinheiro contado, portanto, dispensável. Há outros atrativos na cidade, mas corremos sentido Lima.

Chegando ao pacífico! Que paz, que alegria! A sensação de estar do outro lado da América me fez refletir sobre a vida, coisa que, por sinal, fazia todos os dias em cima da moto. Almoçamos em Pisco e, como estávamos adiantados, resolvemos entrar na cidade e pegar um restaurante na beira do mar. Vários pratos de todos os tipos. Priorizamos, por óbvio, comer pescado.

29 Primeiro contato com o Pacífico

Na estrada, já chegando à capital peruana, vimos dois motociclistas, para os quais Rosalvo, na cara dura, fez sinal para conversar e eles pararam. Deram valiosas dicas, como não ir a Plaza de Armas, pois lá era tomado de mendigos e usuários de drogas. Nos indicaram também que ficássemos em Miraflores, um distrito que foi tomado pela expansão urbana e, praticamente, era um bairro da Capital. Excelente pedida. Ali os hotéis já não eram baratos. Após cansativa procura, conseguimos vaga no Hotel Ariosto. O preço não era exorbitante e ainda tinha garagem, o que, no nosso caso, era fundamental. Lembraram da teoria: quanto maior a cidade, pior o trânsito? Lá faz qualquer paulistano se sentir na roça. O curioso é que não havia acidentes, pelo menos não os presenciamos.

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29B Bela igreja em Lima

Após uma injeção de civilização, revisadas as motos, descemos o pacífico rumo ao Chile. Resolvemos que não voltaríamos ao Brasil pelo mesmo trajeto, e, sim, por Foz do Iguaçu. Chegamos em Camaná, ainda no Peru, uma cidadela à beira do Pacífico, onde a única coisa que tínhamos para fazer era dormir. Decidimos que não íamos conhecer Arequipa e nem o lago Titicaca, porque demandaria mais tempo e dinheiro, coisa que não tínhamos sobrando. Fiquei sentido por não ter conhecido Chivay e por não ver o voo dos condores e o Monte Mismi, onde nasce o Rio Amazonas, mas aqui a caminhada seria boa!

Quanto mais ao sul do Peru, maior a diferença de costumes e da culinária. A comida fica mais pesada e o povo mais simples. Aliás, fica aqui minha admiração pelo povo peruano, pela retidão e educação, sendo muito homogêneos em suas tradições e costumes. Como bom brasileiro, esperamos, a todo momento, sermos enganados por algum peruano, algo que nem de perto aconteceu. O meu preconceito me envergonhou.

Seguimos pelo litoral, cruzamos a fronteira do Chile e ficamos em Arica. A mudança do povo e cultura são perceptíveis. Achamos um hotel, Lynch, do qual o proprietário também era um motociclista. Além do desconto, ainda ganhamos um guia da moto, que nos levou para conhecer a cidade, num aprazível passeio noturno. Fica aqui meu especial agradecimento ao que posso chamar de amigo, Gabriel Cristian, que nos auxiliou na troca de pneu da moto, nos levando para a área comercial da cidade e se recusou a aceitar qualquer gratificação por isso.

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Como resolvemos a questão do pneu da moto já tarde, decidimos que acordaríamos de madrugada e seguiríamos direto para San Pedro de Atacama, num ‘só tiro’. Quatro horas da manhã e já estávamos montados na moto. Quando passamos por uma região desértica, além dos fortes ventos, sofremos uma sensação térmica terrivelmente baixa, a ponto de ter sido oportuno uma pausa para um café. Assim que o sol nasceu, problema resolvido. Chegamos em Iquique, ainda cedo, quase sem combustível devido a falta da postos. A cidade é maravilhosa e fica entre o Pacífico e uma montanha. Impressiona, mesmo depois de termos visto tantas maravilhas.

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No mesmo dia, rodamos pelo Pacífico até Tocopilla. As curvas e o mar ao nosso lado me lembrou Roberto Carlos cantado ‘as curvas da estrada de Santos’, a qual também já tive o prazer de conhecer. A saudade do Brasil e de casa já começava a apertar. Chegamos de dia ainda em San Pedro de Atacama. Nada como acordar cedo para render o dia. Logo de cara, encontramos oito motociclistas de São Paulo e logo fizemos amizade e ficamos na mesma pousada que eles. Aliás, é impressionante como na localidade há brasileiros. Muito lugar para conhecer, mas pouco tempo e dinheiro. Essa combinação não deu certo. Acordamos e seguimos viagem, quando nos despedimos do Chile e entramos na Argentina.

Almoçamos à beira de estrada, um prato fantástico e preço idem. Viva a Argentina! Nisso eles são imbatíveis. Descemos a Cordilheira e a viagem já estava com gostinho de despedida. Parecia que já éramos locais. Semanas em cima de uma moto, sendo este o nosso habitat. Dormimos em San Salvador de Jujuy e tivemos dificuldades com câmbio. Como nos arrependemos de não andar com dólar, moeda que é aceita no mundo inteiro… Por pouco, não ficamos sem dinheiro para abastecer, pois não conseguimos cambiar pesos Argentinos e quase nenhum posto aceitava cartão, pois a taxa são assustadores 15%!

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Atravessamos o Chaco argentino com certo receio, pois é uma região de muito calor e pouco habitada. Acredito que a época favoreceu, pois foi muito tranquilo, exceto a entediante e interminável reta. Chegamos a Corrientes e lá sim nos surpreendemos com o tamanho e estrutura da cidade. Muito bom! Altamente recomendável, pena que o nosso tempo já estava terminando.

Dali, seguimos no outro dia até Puerto Iguazú, cidade Argentina que faz fronteira com o Paraguai e com o Brasil. A influência brasileira se mostrou clara neste trajeto: muitos radares de velocidade, coisa que não víamos há milhares de quilômetros. Logo, confirmamos que a educação no trânsito não tem sido bem exercitada no Brasil. Resolvemos dormir na Argentina, ainda porque poderíamos desfrutar de combustível mais barato, estadia mais barata, culinária melhor e mais barata e, para se entrar no Paraguai, o táxi partindo da Argentina é menos burocrático.

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No dia seguinte, fomos até Ciudad del Este, no Paraguai, e seguimos a orientação do taxista, que nos levou numa loja com a garantia de que todos os produtos eram originais. Porém, os preços não compensavam. Quando os preços compensavam, tínhamos que ter cuidado com a qualidade do produto. No final das contas, nada compensava. Exceto muamba, que não era nosso caso, pois nem tínhamos onde carregar. Mas temos que conhecer, nem que seja para falar mal. O melhor da visita à cidade foi o shopping Monalisa, onde os preços eram razoáveis e se encontrava de tudo.

Voltamos para a Argentina, montamos nas motos e pilotamos até Cascavel, já no Brasil, no estado do Paraná. Curioso a quantidade de churrascaria rodízio quando se cruza a fronteira. Embora a Argentina seja ótima na culinária, os brasileiros ganham em gula, pois é uma ao lado da outra. Realmente, não encontramos rodízio em nenhum dos três países que cruzamos. De tanta propaganda, em Cascavel jantamos, lógico, em um rodízio. Tem seu lado bom. O peso que perdemos na viagem (uma média de 5kg) viemos ganhando desde o norte da Argentina.

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Viemos juntos até pouco depois de Londrina, quando nos despedimos do Rosalvo, que passaria pela capital Paulista e iria direto para Niterói, no Rio de Janeiro. Aqui, todas as divergências da viagem foram tomadas por um sentimento de saudade e carinho, que só uma verdadeira amizade pode proporcionar. Valeu demais, Rosalvo! Seguimos, eu e Tielo, e dormimos em São Sebastião do Paraíso, já em Minas Gerais. Embora carioca da gema, o fato de estar no estado que me acolheu de braços abertos, com o jeito mineiro peculiar de ser, me deixou com uma sensação de ter chegado em casa.

Mais 450 km, estava em casa, são e salvo, e com sensação de dever cumprido. Nem uma unha quebrada e sem problema mecânico algum. Só os pneus de duas motos que acabaram. Mais de 12 mil quilômetros e 26 dias longe de casa. Uma viagem inesquecível.”

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História enviada pelo leitor Bruno Affonso