Volta ao mundo dos vinhos – Wine World Adventure

Em uma bela manhã de sábado, fiz um programa um tanto quanto inusitado: fiquei dentro de um motorhome, degustando o vinho oficial da Copa do Mundo, o Faces. Explico: fui com uma amiga conhecer a “casa rodante” de um amigo dela, que havia chegado, há poucos dias, de uma expedição de 2 anos e 3 meses. Ele, o pai e a irmã viajaram a bordo do motorhome, visitando os principais países produtores de vinho do mundo.

O motorhome!

O motorhome!

Trata-se da Wine World Adventure, aventura que ficou famosa mundialmente. Resumindo, o trio circulou por 34 países, percorreu 89.952 km, visitou 57 regiões vinícolas, sendo 162 vinícolas, e degustaram 2.951 vinhos. Tá bom ou quer mais?

Claro que aproveitei e bati um papo com Pedro Barros. A curiosidade é bastante e gostaria de saber alguns detalhes do dia a dia, desafios, enfim, conhecer melhor esta vida sobre quatro rodas.
Então, aqui vai um pouco desta aventura, que só me deixou com mais e mais vontade de viajar…

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Retalhos do Mundo (RM) – Pedro, me conte um pouco de onde surgiu a ideia de fazer esta expedição.

Pedro Barros – Meu pai é engenheiro e trabalhou por 35 anos na Usiminas. Lá, ele fazia palestras para funcionários e, certa vez, o tema foi ‘como realizar os sonhos de sua vida’. E meu pai sempre teve como hobby a degustação de vinhos. Assim, sempre teve, também, a vontade de ir à França e Itália aprender mais sobre a bebida. Então, questionei: – “Mas França e Itália? Você não fala nenhum dos dois idiomas”.

Naquela época, ele já estava planejando a aposentadoria, eu já trabalhava com fotografia e pensamos: – “porque não viajar mais?”. Daí, optamos por começar na Argentina e no Chile, pois lá se fala espanhol, mais fácil de entender. Além disso, tem vinícolas excepcionais, como em Mendoza, na Argentina. Decidimos: – “vamos primeiro para lá e depois vamos para a Europa”.

Começamos, então, a discutir: -“se formos para a América do Sul, temos que subir até a Califórnia também, pois alguns dos melhores vinhos estão lá”. E continuamos: – “Europa tem Hungria, com bons vinhos; tem os vinhos de sobremesa; o vinho do Porto, de Portugal. Aí o negócio foi crescendo, até chegarmos à ideia de fazer a volta ao mundo dos vinhos.

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RM – Como foi o planejamento da expedição?

Pedro – Foram três anos planejando, juntando dinheiro. Eu já trabalhava com publicidade e com fotografia. Então, a ideia foi unir as duas coisas: vinho e fotografia. Montei um projeto e fomos em busca de apoio e patrocínio. Então, conseguimos o apoio da Iveco, que nos deu o veículo. Na verdade, eles nos deram três chassis, sendo a cabine da frente e a parte de trás, mas sem nada, apenas o chassi. Fizemos, então, uma permuta com uma empresa que fabrica motorhome no Brasil.

RM – Mas aqui há mercado para a fabricação de motorhome?

Pedro – Este mercado no Brasil é muito fraco. Só existem duas empresas que fabricam no Brasil. Já nos Estados Unidos, Europa e Nova Zelândia é bem mais forte. Os países têm estrutura para isso, oferecem lugar para estacionar, descarregar, sistema de esgoto e água. Tem tudo!

Parece simples, mas dar uma volta ao mundo de motorhome não é fácil. Dá muito trabalho. Exige muito cuidado com o veículo: colocar água, gasolina, descarregar, lidar com problemas mecânicos. É realmente uma aventura. Se acaba a energia, perdemos comida. É preciso de um grande planejamento, pois você vai estar em um lugares que não conhece, que nunca viu na vida.

Interior do motorhome - dois quartos, copa/cozinha e toilet! Tudo o que uma casa precisa...

Interior do motorhome – dois quartos, copa/cozinha e toilet! Tudo o que uma casa precisa…

RM – Quando começaram a viagem?

Pedro – Saímos de Belo Horizonte em dezembro de 2011. A expedição em si, começamos em janeiro de 2012, por Florianópolis.

RM – No total, foi quanto tempo de viagem?

Pedro – Dois anos e três meses de viagem, sem parar. O tempo que parávamos, era o tempo que colocávamos o motorhome no navio para atravessar de um continente para outro, o que levava, em média, três semanas.

Na América do Sul, fizemos Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Em Valparaíso, colocamos o veículo no navio rumo a Houston, nos Estados Unidos. E nós íamos de avião. Então, nesse período para o transporte do carro, éramos livres para fazer o que quiséssemos.

RM – Tipo férias da viagem?

Pedro – Isso! Após a América do Sul, eu fui para a França fazer um curso de francês. Minha irmã voltou para o Brasil para ver o namorado. Então, éramos livres. Um tempo para dar uma respirada.

RM – Como foi dividido o tempo da viagem? Quanto tempo em cada país ou continente?

Pedro – Levamos quatro meses na América do Sul / férias / quatro meses na América do Norte / férias / 11 meses na Europa / férias / depois África do Sul / férias / por fim, Nova Zelândia e Austrália.

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RM – Vocês foram à Ásia?

Pedro – De Ásia, fomos apenas à Turquia. Como a ideia era visitar os principais produtores de vinho, a Ásia ficou de fora, por não ser um país produtor. Apesar de que China é grande produtor, mas são vinhos de baixa qualidade. E, além disso, é muito longe. Então, não valeria a pena.

Mas, quando estávamos na Grécia, onde passamos por Athenas, Santorini, Mikonos, que é um barato, seguimos até Istambul, na Turquia. Chegando lá, fizemos questão de atravessar a ponte e chegar na Ásia, pois a cidade é dividida em duas. Uma parte na Europa e uma na Ásia. Então, colocamos os pés lá!

RM – E, ao visitar 34 países, como era feito com relação ao idioma? Vocês dominam o inglês?

Pedro – Eu e minha irmã falamos inglês, então, quanto a isso, na Europa foi bem tranquilo. Na Alemanha, por exemplo, todo mundo fala inglês. E eles falam de forma pausada, por não ser a língua oficial, o que ajuda muito. Lá me senti bem à vontade para conversar, fiz amigos… achei que seria o contrário.

Nos Estados Unidos, por incrível que pareça, foi mais complicado do que na Alemanha, pois, como é o idioma deles, as pessoas falam muito rápido e, às vezes, é difícil acompanhar.

Já o espanhol, nós falamos também. O francês eu comecei a estudar antes de viajar e, durante a viagem, fiz um curso em Paris, então, fiquei com uma base boa. Minha irmã tem uma base de italiano, pois ela já tinha feito aulas no Brasil. Já meu pai, lê muito bem o inglês, pois ele precisava da leitura no trabalho. Então, isso nos ajudou muito.

RM – Quais foram os principais desafios da viagem?

Pedro – O principal foi a convivência. Ficávamos 24h grudados. Por mais que seja família, foi difícil. Há intimidade demais. Porém, não seria possível fazer esta mesma viagem com amigos. Não aguentaríamos. É algo para se fazer em família mesmo. Mas a convivência é difícil, viu? Pensa você ficar direto grudado neles. Decidir tudo junto, como programação, rota, etc. Então, tinha hora que precisávamos fazer passeios sozinhos. Nas grandes cidades, por exemplo, eu saia sozinho, pois sou solteiro e queria aproveitar também para curtir.

E isso foi essencial, pois, durante a viagem, passamos muito tempo em cidades do interior, visitando as vinícolas, nas regiões rurais. Não tínhamos muita coisa para fazer. Às vezes, ficávamos duas semanas em regiões vinícolas. E, depois de conhecer diversas delas, vai deixando de ser novidade, íamos ficando um pouco entediados. Então, tínhamos que saber lidar com isso também.

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RM – E outros desafios? Passaram por alguns apertos?

Pedro – Claro! Quando saímos da América do Sul, a ideia era irmos para a Califórnia, Washington e Oregon, subindo a costa até o Canadá. Mas tivemos que ir para Houston, porque não seria possível levar o carro de navio até a Califórnia. Assim, precisamos então atravessar os desertos do Texas e de Nevada para chegar à Califórnia. Nessa viagem, entrou uma pedra no ventilador do veículo e perdemos o cooler, o que fazia o motor esquentar demais. E estávamos no deserto, em pleno verão. Então, imagina o calor.

Tivemos que atravessar três mil quilômetros, de Houston para a Califórnia. Fizemos a viagem em sete dias. Ou seja, perdemos muito tempo. E essa demora aconteceu devido à dificuldade para o envio da peça para consertar o carro. Durante a viagem, a Iveco era a responsável pela manutenção do veículo. Então, qualquer problema, ela nos socorria. Mas não existe Iveco nos Estados Unidos. Porém, a Fiat (à qual a Iveco pertence) comprou a Chrysler, que nos forneceria a peça, no entanto, não tinha Chrysler aonde estávamos. Foi preciso que a Iveco brasileira enviasse a peça do Brasil para a Califórnia para podermos trocar. E aí essa viagem demorou demais.

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RM – O que fizeram nesse meio tempo de conserto do carro?

Pedro – Pensamos em ir para o Canadá, mas, lá, as praias não são boas, o vento é muito forte, tanto é que um esporte muito praticado é o windsurfe. Até cheguei a procurar um professor de windsurfe para fazer umas aulas, mas não encontrei. Então, decidimos ir para Las Vegas. Alugamos um carro e andamos uns 1.000 quilômetros até lá. Ficamos uns seis dias em Vegas. Mas, no final, não tínhamos mais nada para fazer. Três dias naquela cidade você esgota. Então, aproveitamos o tempo para descansar, pois o perrengue da viagem foi cansativo.

RM – Frio, chuva… pegaram muito?

Pedro – Nossa, passamos um aperto. Conseguimos uma corrente para colocar no pneu do carro para andarmos na neve. Mas nem mexemos na corrente. Quando começou a nevar mesmo, estávamos em Paris. Então, estacionamos em um camping e ficamos curtindo a cidade e vendo a neve cair. Não quisemos ficar rodando muito com aquele tempo. Mas, alguns dias depois, tivemos que ir para Champagne degustar alguns vinhos. Caso contrário, não daria tempo de seguirmos nosso roteiro. Fomos a Bordeuax, Valle do Loire… A França tem muita região vinícola, então, fizemos toda a rota. Mas, no caminho para Champagne, passamos aperto na estrada, pois esse veículo é muito instável. Por ser alto, ele desliza muito facilmente. E não sabíamos colocar a corrente. Então, fomos de Paris a Champagne a 20 km/h, na neve e sem a corrente.

Outro perrengue foi na Nova Zelândia. Pegamos um tornado, com chuva de granizo. De repente, o céu ficou preto, não víamos nada a nossa frente. Isso foi na cidade de Cristchurch, a qual já foi praticamente dizimada, devido aos tornados. É uma região perigosa e o tornado apareceu do nada.

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RM – Em relação à segurança, houve algum caso referente a isso?

Pedro – Quanto à segurança, foi super tranquilo. Na Europa, Austrália e Nova Zelândia, ficávamos de porta aberta, sem problema algum! No Brasil, infelizmente, não podemos fazer isso. É impossível. Mas tivemos problemas de segurança sim, na Argentina e em Portugal.

Quando estávamos em Porto, em Portugal, íamos degustar alguns vinhos e, como não achávamos vaga para o motorhome, estacionamos o veículo em um lote vago e fomos fazer a degustação. Ao final, fui fazer umas fotos do pôr do sol maravilhoso e meu pai foi me acompanhar. Enquanto isso, minha irmã voltou para o carro. Quando ela chegou, o motorhome estava arrombado e levaram três laptops. Tivemos que comprar outros, pois era ferramenta de trabalho. Podiam até ter levado mais coisas, pertences nossos. Mas acredito que pegaram o que estava ao alcance, mais fácil de lavar.

Na Argentina, estávamos em Puerto Madryn, para fazermos mergulho com leões marinhos. Mas, na madrugada anterior, estávamos dormindo, e minha irmã ouviu um barulho de vidro, por três vezes consecutivas. Quando ela foi olhar, tinham uns três meninos batendo no vidro. Eles chegaram a quebrar o vidro, para tentar entrar. Mas acabaram não entrando. Em questão de segurança, foram esses dois casos.

RM – Como era a estrutura para motorhome nos países visitados? Toda cidade tinha lugar para parar para dormir? Por exemplo, onde deixavam o carro durante as noites em Nova Iorque?

Pedro – Sempre pesquisávamos antes a estrutura das cidade que íamos visitar. Em NY, deixávamos o carro em New Jersey, cidade bem próxima. E íamos para NY de metrô, fazíamos nossa programação, como ir a um jogo do US Open, já que o tênis é uma de nossas paixões, e depois voltávamos para New Jersey. Em cidades grandes era sempre mais difícil de parar. Mas diversas delas tinham ótima estrutura com campings e tudo que precisávamos.

O nosso motorhome não é dos maiores, como os americanos, que são enormes, e nem pequenos como os da Europa. É um tamanho intermediário. Então, passamos aperto na Europa, pois não tinha tanto lugar para parar um carro daquele tamanho.

Horácio e Pedro

Horácio e Pedro

RM – Faziam comida em ‘casa’ ou comiam na rua?

Pedro – No começo, comíamos muito em restaurantes. A ideia de comer fora era muito para conhecer a comida típica de cada local, harmonizar com vinho. Mas tem hora que você cansa de comer todos os dias fora. Além de ficar muito caro. Então, às vezes fazíamos uma comidinha em casa.

Eu e minha irmã cozinhamos alguma coisa, mas meu pai não mexe no fogão. Ele entende de vinho e gosta de comer bem. Mas, para a cozinha, íamos eu e minha irmã. Fazíamos comidinhas leves para harmonizar com vinho branco, como um salmão, por exemplo.

RM – Durante a viagem fizeram cursos sobre vinhos?

Pedro – Meu pai já tinha feito um curso, 15 anos atrás, com o Renato Costa, um sommelier de BH. Ele sempre estudou tanto e aprendeu tanto sobre vinhos, que a vivência dele, ainda mais após a viagem, foi o maior aprendizado. Eu aprendi muito com ele. Degustamos quase 3.000 vinhos. O negócio é saber comparar um com o outro mesmo!

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RM – Você e sua irmã revezavam com seu pai na direção?

Pedro – Sim, eu revezava. Minha irmã dirigiu uma vez na vida, em uma ocasião que precisávamos ir bem devagar, pois o veículo é muito grande. Era uma estrada de rípel, tipo um pedregulho, muito comum na Argentina e no Chile, que exige que vá muito devagar. Foi uma viagem demorada, pois fomos do início da Patagônia até Ushuaia, a cidade mais austral, nesta estrada. E, antes de chegar a Ushuaia, ela dirigiu um pouco. Mas, depois, nunca mais.

Mas eu e meu pai revezávamos sempre. Porém, em cidades muito grandes e movimentadas, como San Francisco ou Nova Iorque, eu não tinha paciência, pois o motorhome é muito grande. Em cidades muito pequenas também não é fácil, como as cidadezinhas europeias, as da Itália, principalmente. Mas, na estrada eu achava uma beleza. Nas autoestradas americanas eu dirigia bastante.

Eu dirigi muito nas Américas do Sul e do Norte, onde tínhamos que correr mais, pois era preciso percorrer maiores distâncias em menos tempo. Já na Europa, onde ficamos quase um ano e os países são pequenos e muito próximos uns aos outros, tínhamos mais tempo e podíamos fazer com mais calma.

RM – Vamos a uma pergunta difícil: qual país você mais gostou?

Pedro – Essa é difícil mesmo, assim como me perguntar qual o melhor vinho.
Mas eu gosto muito de natureza. Sou do tipo que prefiro ir para Miami e San Diego, que são cidades litorâneas e de praia, do que ir para Nova Iorque bater perna. Gosto também, não vou negar. Mas prefiro lugares mais calmos. Viagem para mim é para relaxar, descansar.

Se você me perguntar onde eu voltaria, com certeza, um dos países é a Nova Zelândia. Lá é um lugar que a paisagem é incrível, você vê de tudo: montanha, neve, frio, calor, lago, rio, cachoeira. E é tudo muito verde. Um país muito preservado. Gostei também da Eslovênia e da costa da Croácia. A Itália é lindíssima também.

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RM – Já que você deu a deixa, outra pergunta difícil: qual foi o melhor vinho? Não precisa falar o nome, mas me diga as melhores regiões!

Pedro – Temos vários bons vinhos. Mas alguns que marcaram foram o syrah, da Austrália; um na Patagônia, chamado Noemia. Tem o Wabs one, na Califórnia; o Cheval Blanc, na França. Nossa, tem muita coisa boa. Difícil falar um melhor.

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RM – Depois de viajar tanto, você tem vontade de ir para mais algum lugar?

Pedro – Nossa! Agora que eu tenho ainda mais vontade de viajar! Quero ir aos países que não fomos durante a expedição. Quero conhecer a Ásia. Li o livro Laowai (gringo, em mandarim), da Sônia Bridi. Ela conta sobre a experiência dela na China, e a leitura me deixou com muita vontade de conhecer o país.

Quero ir aos países nórdicos, como a Noruega. E também Tailândia, Alaska, Hawaii e México.

RM – O que vão fazer agora com o motorhome?

Pedro – Estamos com vários projetos em andamento. Estamos produzindo um livro sobre a viagem. Será um livro fotográfico, em que vamos contar a história por meio de imagens. Pretendemos lançar no segundo semestre.

No mais, o carro é nosso, então, é para laser do meu pai. Ele está agora com a Escola Itinerante de Vinhos. Assim, ele pode ir com o carro para o interior, locais que não têm infraestrutura para aulas. Tem muitas pessoas interessadas em aprender sobre vinho, mas não tem local e nem um sommelier para isso. Agora, usamos o motorhome para este fim. Levamos as taças, os vinhos e oferecemos o curso, com duração de dois dias, sendo 4h por dia. Ele ensina e eu o auxilio.

Motorhome agora dá espaço à Escola Itinerante de Vinhos

Motorhome agora dá espaço à Escola Itinerante de Vinhos

Bom, é isso! Aqui está um pouquinho desta aventura maravilhosa! Imaginem que bagagem eles trouxeram!?! É o que eu sempre digo: pare de gastar e vá viajar! Este é um aprendizado e uma riqueza que ninguém pode nos tirar nunca!

O que mais posso dizer? Acho que apenas parabenizar ao sr. Horácio Morais Barros e aos filhos Pedro Henrique Barros e Natália Vieira Barros pela expedição, pela coragem, engajamento e disponibilidade de compartilhar essa história com a gente! A eles, um brinde (com vinho, claro) de muito sucesso!

E lógico que, depois de passar uma manhã ouvindo essas histórias assentada na ‘sala de jantar’ do motorhome, apreciando um bom vinho, já comecei a matutar e trocar mensagens com meu noivo, planejando uma viagem a dois, a bordo de um motorhome. Ainda nem sei quando vamos, mas já estou contando os dias!

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Ottawa, a cidade do parlamento canadense

Minha próxima parada, saindo de Montreal (também de Via Rail), foi Ottawa, a capital canadense, localizada no estado de Ontário. Engraçado é que pouco se houve falar desta cidade. Muitas pessoas, inclusive, não sabem que ela é a capital do país. Isso se deve ao fato de Ottawa ser uma cidade bem menor do que suas vizinhas Montreal e Toronto e, consequentemente, oferece bem menos opções turísticas e atrativos do que as duas. É uma cidade para ser incluída no roteiro como um adendo e não como ponto principal. No meu caso, consegui unir o útil ao agradável. Primeiro, porque eu tinha vontade de conhece-la e, como estava visitando o leste canadense, a inclui no roteiro. E segundo, consegui pegar uma passagem com pouquíssimas milhas entre Ottawa e Chicago, destino que fazia parte do meu roteiro.

Parlamento canadense

Parlamento canadense

Apesar de bem menor e pacata, Ottawa é uma cidade bonita, bem cuidada e merece uma atenção de quem vai praquelas bandas. E nem é preciso dedicar tanto tempo a ela. Em dois dias, você consegue visitar as principais atrações, que são todas próximas uma à outra, o que permite que o tour seja feito a pé.

Ottawa vista da Peace Tower

Ottawa vista da Peace Tower

Não vou negar que praticamente tudo na cidade gira em torno do parlamento canadense, o principal prédio da cidade. Belo e imponente, tem à sua frente uma torre com um relógio no topo, lembrando bastante o Big Ben londrino. E, como na capital inglesa, durante o verão, nos meses de junho e agosto, há troca da guarda diariamente. É lindo e imperdível. Todos os guardas com suas roupas vermelhas, marchando e se apresentando para a multidão que se aglomera para assisti-los.

Troca da guarda em Ottawa

Troca da guarda em Ottawa

Após a troca da guarda, visitei o interior do prédio do parlamento. Para isso, é preciso pegar o bilhete com antecedência na praça localizada logo em frente ao prédio, pois os passeios são feitos com hora marcada. O prédio do parlamento canadense é constituído pela House of Commons, Hall of Honor e o Senado Canadense. Também faz parte do conjunto a torre do relógio, chamada Peace Tower, onde se pode subir e ter uma bela vista da cidade, cortada pelo canal Rideau.

Interior do parlamento canadense

Interior do parlamento canadense

De lá, fui bater perna. Passei pelo belíssimo hotel Fairmont Chateau Laurier, que mais se parece um castelo.

Hotel Fairmont Chateau Laurier

Hotel Fairmont Chateau Laurier

Ele fica ao lado do canal Rideau, curso artificial de águas, aberto para navegação por meio de eclusas. Quando cheguei à varanda lateral do hotel, havia alguns barcos atravessando o canal e fiquei observando o funcionamento das eclusas (manuais!!!), que vão acumulando água até nivelar e permitir a navegação. Uma boa dose de paciência é exigida por quem estiver nas embarcações, porém, é bastante curioso e, com boas companhias, deve até ser divertido atravessar o canal.

Eclusas no canal Rideau

Eclusas no canal Rideau

Caminhei pelo parque localizado aos fundos do Chateau Laurier, o Major’s Hill Park, de onde se tem uma bela vista do parlamento e do rio Ottawa. Depois fui até a basílica de Notre Dame, a qual merece a visita pela beleza de seu interior, com vibrantes tons azulados no teto.

Parlamento e rio Ottawa vistos do Major's Hill Park

Parlamento e rio Ottawa vistos do Major’s Hill Park

Peguei a Sussex Drive, uma importante rua da cidade, com belas lojas de roupas e artigos de decoração. Os prédios são todos antigos e de tijolos expostos, com floreiras nas calçadas. Logo ali atrás, está outra das principais atrações da cidade, o ByWard Market, o mais antigo mercado de produtos típicos canadenses do país.

Bay Ward Market

ByWard Market

Na região, banquinhas de orgânicos, produtos feitos com mapple syrup, lojinhas de petiscos, bagels, comida japonesa e uma infinidade de restaurantes. Visitei a famosa e lotada Le Moulin de Provence Bakery, onde até Obama já provou os doces e cookies. Claro que resolvi provar também. Caso contrário, me arrependeria. E não me arrependi nem mesmo de enfiar o pé na jaca, pois é uma delícia!

Le Moulin de Provence Bakery

Le Moulin de Provence Bakery

Mais tarde almocei no restaurante The Grand, onde comi um delicioso sanduíche de parma com salada, acompanhado de uma Molson Canadian bem gelada! A região é uma delícia para almoçar, fazer compras e andar sem rumo. Fica sempre movimentada com pessoas de todas as idades.

Pausa para a Molson Canadian

Pausa para a Molson Canadian

Depois fui até a loja de departamento La Baie / The Bay ver as novidades. A loja é enorme e se junta a um shopping, o Rideau Centre. Para quem está com lugar extra nas bagagens, é uma boa opção para compras, pois os preços são bem convidativos. Na sequência, caminhei um pouco pela Wellington Street, a rua do parlamento e retornei ao hotel desbravando o centro de Ottawa.

Centro de Ottawa

Centro de Ottawa

Mas foi à noite que tive a grande surpresa da minha visita à capital canadense. Saí do hotel com blusa de frio, pois o vento já estava mostrando seu poder, com uns petiscos na bolsa e segui rumo ao parlamento para assistir ao Mosaika.

Mosaika emociona os espectadores

Mosaika emociona os espectadores

Trata-se de um grande espetáculo de sons e luzes projetadas no prédio do parlamento, que contam a história do Canadá, desde a vida nos campos até a expansão das culturas. A apresentação tem narração em francês e em inglês e acontece nas noites de verão, entre julho e setembro.

Luzes do Mosaika

Luzes do Mosaika

Foi uma excelente maneira de encerrar minha rápida passagem por Ottawa, levando comigo o gostinho de quero mais e a alegria de ter conhecido melhor aquele maravilhoso país! Ainda bem que eu ainda voltaria ao Canadá nesta mesma viagem!

Vejam no link abaixo um pouquinho do Mosaika!

https://www.youtube.com/watch?v=ST__Jciq-zU&feature=youtu.be

Montreal, antiga e moderna!

Deixando Quebec com o coração nas mãos, me aconcheguei confortavelmente no vagão de trem da Via Rail e, depois de quase três horas de viagem, com belíssimas paisagens decorando minha janela, cheguei a Montreal, a maior cidade da província de Quebec e a segunda maior cidade do Canadá. Nem bem cheguei e já me deslumbrei. Aliás, se deslumbrar no Canadá é coisa fácil!

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A estação fica no centro da cidade e, não coincidentemente, tem uma saída na mesma avenida do meu hotel, de modo que entre os dois locais já pude ir caminhando e contemplando a grande e movimentada Bouleverd René-Lévesque. Como de praxe, deixei as coisas no hotel e fui pra rua. Essa é a melhor parte de viajar na primeira hora do dia: poder aproveitar desde a chegada ao destino.

A bela basílica Marie Reine du Monde, na René Lévesque

A bela basílica Marie Reine du Monde, na René Lévesque

A avenida Boulevard René-Lévesque é linda, com grandes e modernos prédios espelhados. Pelas ruas, gente de todo tipo, numa grande mistura de estilos. E todos sempre muito educados. O que não é de se admirar por se tratar de um país onde os impostos são todos revertidos em benefícios para a população e a educação é obrigatória até os 16 anos.

Fui andando sentido rio Saint Laurent, onde eu sabia que estavam diversos pontos turísticos, incluindo a cidade antiga. No caminho, passei pela Basílica de Notre Dame de Montreal, lindíssima, por sinal, até parecida com a de Paris, com as duas torres altas nas laterais. Mas deixei para entrar nela mais à noite, quando teria o show de luzes e sinos “And Then There Was Light”.

Basílica Notre Dame de Montreal

Basílica Notre Dame de Montreal

Continuei minha caminhada até a beira do rio, e fui andando pela rua de La Commune, visitando os “Quais”, que são espécies de piers ou portos ao longo do rio. Passei pelo Quai King Edward, onde se encontram cinema e centro de ciências; depois pelo Quai Jacques-Cartier, onde fui completamente atraída pelo aroma vindo de um food truck que vendia cookies logo ali em frente, o Monsieur Félix & Mr. Norton Gourmet Desserts. Quem me conhece sabe da minha paixão por esses biscoitos. Não resisti e comprei logo o combo com seis sabores variados, incluindo de chocolate, castanhas, caramelo, chocolate amargo e outros tipos de chocolates! Sem explicação. Fiquei tão entretida com meus biscoitos que a gula acabou me desviando e, quando percebi, já estava no próximo Quai, o Quai de l’Horloge, o mais interessante deles.

O famoso e delicioso cookie!

O famoso e delicioso cookie!

Lá, passei por um parque lindo, onde crianças brincavam e remavam barquinhos pelo lago. Me assentei para deliciar mais um cookie e ficar admirando a vista e uns barcos enormes, lotados de gente, que ficavam dando peões pela água, com a música no último volume – passeio para os mais animados, que não se importariam de se molhar naquela manhã de vento frio, o que não era o meu caso!

Rio Saint Laurent e, ao fundo, a Torre do relógio

Rio Saint Laurent e, ao fundo, a Torre do relógio

Continuei minha caminhada até a Torre de l’Horloge, com um grade relógio no topo, a qual foi construída em 1921 como parte da área portuária da cidade. Ela fica localizada à beira do rio e pode ser visitada por quem se dispuser a subir os 192 degraus. Na subida, podemos ver o funcionamento do relógio e, lá no alto, um pequeno espaço cercado por grade nos permite uma linda vista dos piers com barcos e lanchas ancorados, além de avistarmos parte da cidade antiga, os grandes prédios de Montreal e a Ilha de Saint Hélène.

Montreal vista do alto da torre do relógio

Montreal vista do alto da torre do relógio

De lá, segui para a cidade antiga, caminhando pela charmosa rua Saint Paul. Não deixe de visitar o Marché Bonsecours, que reúne salas de exposições, restaurantes e lojas com artigos em pedras, vidro, couro, tricot, além de souvenirs. Mas calma! Os preços lá fora são melhores.

Marché Bonsecours

Marché Bonsecours

Continuei a caminhada pela rua e cheguei à parte onde somente é permitida a passagem de pedestres. Uma delícia! Uma infinidade de bares e restaurantes com mesas nas calçadas, lojas de roupas, artigos esportivos, souvenirs, hotéis, galerias de arte.

Rue Saint Paul, em Vieux Montreal

Rue Saint Paul, em Vieux Montreal

A praça Jacques Cartier cruza a rua Saint Paul. O local, sempre animado, é ponto de encontro de artistas de rua, jovens e turistas.

Praça Jacques Cartier

Praça Jacques Cartier

Ao fundo, pode-se avistar o belo prédio da prefeitura de Montreal, com sua bela arquitetura que chama atenção de quem visita o local. O prédio pode ser visitado com guias e vale a pena devido à beleza de seu interior.

O belo prédio da prefeitura de Montreal

O belo prédio da prefeitura de Montreal

Fiquei por ali, em Vieux Montreal, até mais tarde. Nesse meio tempo, me juntei a uns grupos de jovens e turistas que assistiam à apresentação de um cantor na praça Jacques Cartier, entoando músicas dos Beatles, Janis Jopplin, The Police, entre outros músicos que adoro! A essa altura, a fome já havia batido e optei por experimentar o típico poutine, porção de batatas fritas cobertas com queijo derretido e molho gravy, um espeço molho de carne. Uma delícia, mas as porções costumam ser bem grandes.

Pagando de gatona em Vieux Montreal

Pagando de gatona em Vieux Montreal

Mais tarde, voltei novamente pela Notre Dame de Montreal para assistir ao show “And Then There Was Light”, atração imperdível para quem visita a cidade. A visita à Notre Dame à noite vale a pena até mesmo para quem não quiser entrar para o show, pois, ela fica toda iluminada por fora!

Notre Dame iluminada

Notre Dame iluminada

No dia seguinte fiquei por conta de conhecer o centro de Montreal. Comecei visitando o Quartier Chinois, vulgo China Town de Montreal. E foi um dos mais organizados que já vi, no entanto, tem bem menos lojas e quinquilharias do que os demais por onde passei. Um pórtico, é claro, recebe os visitantes, que sempre acabam caminhando pela feirinha de rua com produtos baratíssimos.

Pórtico no Quartier Chinois

Pórtico no Quartier Chinois

Continuei até a Rua Saint Catherine, uma das principais de Montreal, importante centro comercial para a cidade, com lojas das mais diversas, restaurantes variados, shoppings, teatros. Nela também havia uma área onde somente pedestres podiam passar. Isso é feito durante o verão, quando os canadenses preferem ficar nas ruas aproveitando o sol, enquanto que, na maior parte do ano, é o frio que predomina no leste canadense.

Rua Saint Catherine

Rua Saint Catherine

Foi pela rua Saint Catherine que entrei no Complexe Des Jardins, mal integrado à cidade subterrânea. Apesar de ter maior movimento durante o inverno, ela está sempre movimentada, com pessoas indo e vindo, chegando e saindo do trabalho, fazendo compras ou simplesmente passeando. A cidade subterrânea de Montreal constitui o maior sistema de vias subterrâneas para pedestres do mundo, com mais de 30 km de extensão. A gente chega a se perder, pois entramos por uma rua, atravessamos de um lado para o outro e quando procuramos uma saída, saímos em outra rua, já distante daquela pela qual entramos. Isso é, no mínimo, divertido! Procurei a saída que pelo Museu de Arte Contemporânea de Montreal, o qual já aproveitei para visitar.

Cidade subterrânea

Cidade subterrânea

Saindo novamente pela rua Saint Catherine, continuei subindo e visitando as lojas, incluindo a La Baie, uma enorme loja de departamento canadense, bem no estilo estilo da americana Macy’s ou da inglesa Harrods. Em seguida, voltei pelo outro lado da rua até chegar a Rue Saint Denis, repleta de barzinhos com as fachadas coloridas, música alta, mesas nas calçadas e muita gente conversando por todo lado. Parei para tomar um belo de um café e repor as energias para perambular pelo Quartier Latin, a região cult de Montreal, onde se concentram estudantes, teatros, livrarias, bibliotecas e brechós.

Lindas construções no Quartier Latin

Lindas construções no Quartier Latin

O terceiro dia em Montreal reservei para visitar um lugar maravilhoso que eu havia visto em um cartão postal em uma loja de souvenir na cidade velha! O L’Oratoire de Saint Joseph du Mont Royal, uma bela basílica católica localizada no ponto mais alto da cidade.

L’Oratoire de Saint Joseph du Mont Royal

L’Oratoire de Saint Joseph du Mont Royal

Para chegar até lá, peguei o metrô e desci na estação Côte des Neiges. O local é simplesmente maravilhoso e, ao entrar na basílica, uma grande sensação de paz tomou conta de mim. A inauguração da basílica foi em 1924. Lá está o coração do Irmão André, que construiu a basílica em homenagem a José de Nazaré, a quem ele credita todos os milagres alcançados em sua vida.

O imponente L’Oratoire de Saint Joseph

O imponente L’Oratoire de Saint Joseph

Fiquei lá por um tempo ,e depois, novamente de metrô, fui até o Estádio Olímpico de Montreal, próxima da estação Viau. Lá foram realizadas as Olimpíadas de 1976.

Estádio Olímpico de Montreal

Estádio Olímpico de Montreal

O belo estádio conta com uma grande torre, onde os visitantes podem subir no elevador inclinado e ter uma linda vista da cidade. Logo ali perto, do outro lado da rua, está o Jardim Botânico de Montreal, o qual não visitei, mas creio que valha a pena!

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Voltei para o centro e caminhei por diversas ruas até chegar à base do Mont Royal, onde fiz uma caminhada respirando ar puro, até retornar às redondezas do meu hotel. Por fim, fui até a rua próxima de onde estava hospedada, a rue Crescent, que é repleta de bares e restaurantes, procurei meu lugar ao sol e, claro, tomei uma bela cerveja canadense para me despedir daquela deliciosa viagem e me preparar para o próximo destino: a capital canadense, Ottawa!

Rue Crescent

Rue Crescent

Ahhh, e já ia me esquecendo: em Montreal é como em Quebec. O francês é predominante na grande maioria dos locais, mas, nas partes turísticas, o inglês é bastante falado, apesar de um sotaque carregado por grande parte dos nativos. Sendo assim: au revoir, Montreal!

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