São Paulo pela São Silvestre

Terra da garoa, de gente boa. Uma megalópole que mais se parece a um caldeirão, onde convivem culturas e estilos provenientes de mais de 70 países. A cidade, que é sinônimo de negócios, entretenimento e, claro, trânsito, reserva diversas atrações turísticas a perder de vista como os passeios ao parque Ibirapuera e ao Mercado Municipal; as compras na rua 25 de Março, Brás e Bom Retiro; as visitas ao Masp e ao Museu do Ipiranga; uma caminhada pela avenida Paulista; as delícias japonesas do bairro Liberdade; os roteiros gastronômicos e as baladas em Vila Madalena e Vila Olímpia; e mais uma infinidade de coisas para se fazer. Como sendo a maior cidade do país e umas das maiores do mundo, com mais de 11 milhões de habitantes, pode-se imaginar o que ela nos reserva, certo?

IMG_1160 Avenida Paulista

Mas, minha ideia hoje é contar um pouquinho sobre uma experiência que vivi recentemente e apresentar um breve roteiro, ou melhor, um roteiro de 15 km pela área central de Sampa, percorrido a pé. Mais especificamente, correndo.

No dia 30 de dezembro de 2013, eu, minha irmã e um casal de amigos pegamos um voo pela manhã no aeroporto de Confins rumo a São Paulo. Isso porque, em setembro, decidimos correr a 89ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre e, diante disso e da fama dos morros presentes na prova, intensificamos nossos treinos. Cada dia que se passava a ansiedade aumentava. Mas, na realidade, comecei a perceber que aquela ansiedade não era pela prova em si – uma vez que já me considerava preparada para qualquer morro da SS -, mas pela emoção em poder participar de uma prova que vejo na TV desde pequenininha e sempre admirei aquelas pessoas que estavam ali, correndo, quase na virada do ano. Como era criança, não tinha ideia de distância, de esforço, de treinos, de nada. Achava tudo o máximo e todos uns loucos. E, não sei se com vocês é assim, mas, quando tenho uma imagem na cabeça desde criança, essa mesma imagem me acompanha a vida toda, até que eu veja com meus próprios olhos. E foi assim com a São Silvestre.

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Até pouco tempo atrás, antes de adentrar no mundo da corrida, achava que a SS era uma maratona (42km) – de novo a imagem de criança. E me arrisco a dizer que a grande maioria das pessoas pensa que se trata, sim, de uma maratona. Isso porque, com quase todos que comentei que eu iria correr, a pessoa dizia: “nossaaaa, 42 km! Que loucura”. E eu: “não, são apenas 15 km”. No fim, já estava achando normal e vendo que não era apenas eu que tinha a imagem de criança na cabeça.

Foi então que, no dia 30/12, fomos para Confins. O engraçado é que deixamos o carro em um estacionamento próximo ao aeroporto, o AeroPark (a diária custa R$ 24 e o estacionamento é fechado, coberto e fica gente 24h. Para ir até o aeroporto, ele oferece o shuttle gratuito e imediato. Uma mão na roda e bem mais seguro e organizado do que o estacionamento do próprio aeroporto) e subimos para o terminal de shuttle. No carro, ‘pesquei’ a conversa de três senhores sobre corrida e intrometi, perguntando se estavam indo à São Silvestre. Eles disseram que sim e um deles estava indo pela 11ª vez! Por aí vi que se tratava de algo muito especial. E foi justamente isso que ele me disse: “esqueça bater metas, esqueça fazer tempo. A corrida é única e exclusivamente para divertir e participar da prova mais famosa do país. A emoção é enorme e a prova é tranquila. Vocês vão ver, vocês vão ver”. “Mas e a Brigadeiro?”, perguntava eu, preocupada com a subida final da prova, pela avenida Brigadeiro Luís Antônio. “Não é nada de mais. É até divertida. Vocês vão ver, vocês vão ver”, repetia com empolgação. No aeroporto, era impressionante a quantidade de gente usando camisas de corridas! Todos já no clima da prova.

IMG_0439 Minha inspiração

Pegamos um voo da Gol e aterrissamos em Congonhas. Quando o avião parou, a emoção tomou conta de todos os passageiros ao ouvirmos alguém da tripulação dizendo: “a todos um feliz ano novo e boa sorte aos participantes da São Silvestre!”. Em um segundo, o avião inteiro aplaudia e comemorava!

De lá, fomos de táxi direto ao local da retirada dos kits, no Ginásio Estadual Geraldo José de Almeida. A fila, claro, estava enorme, mas andando bem rápido, tudo muito organizado. Em pouco tempo, estávamos com nossos kits em mãos, já prontos para a corrida. Na saída do ginásio, diversos estandes de venda de produtos para atividades físicas. Lotado… e somos obrigados a andar em zigzag entre eles até sair do ginásio.

1558420_584084274994905_418958182_n Retirando o kit

Seguimos para o hotel, o Ibis Budget Consolação. Ele fica quase na esquina da avenida Paulista, bem próximo à largada, e é bom, confortável e com ótimo custo benefício. No entanto, o check-in estava lotado, com uma grande fila e demorou bastante. Ali, já percebemos que não se organizam muito bem para receber um evento de grande porte, como a São Silvestre. E olha que é um evento anual e com data pré-definida, o que torna o preparo para o evento algo simples. Basta querer atender muito bem aos corredores que, querendo ou não, merecem um bom descanso no dia anterior à prova e na data em si.

Então, fomos dar uma volta pela paulista, para almoçar e localizar o ponto exato da largada. O bom é que, pela avenida, opções não faltam. Shoppings, cafés, lanchonetes, restaurantes, bares e o que mais quiser. Almoçamos e fomos descendo até a largada, próxima ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). O enorme palco do Réveillon da Paulista já estava pronto para a festa do dia seguinte! Depois, matamos a saudade dos deliciosos Frapuccinos e muffins de chocolate da Starbucks (no dia antes da prova, podemos!) e fomos andando novamente de volta para o hotel.

IMG_1167 Avenida Paulista: palco da São Silvestre

De longe, ouvi uma música tocando bem alto. Era Garota de Berlim, do Supla. Quando vimos, estava tendo passagem de som para a festa de Ano Novo. Supla, Toquinho, Marcelo Bonfá e Paulo Ricardo juntos no palco, em plena avenida Paulista. Um presente para nossa última tarde de segunda-feira do ano. Ficamos por lá curtindo o show, junto a várias pessoas que se aglomeravam. Foi demais! Deu um ânimo a mais para nossa corrida.

Chegando ao hotel, a fila do check-in continuava e percebemos que seria assim até o final do dia. Descansamos um pouco e saímos para jantar com um casal de amigos, que mora na cidade. Para armazenar energia para o dia seguinte, precisávamos de massa, carboidrato! Então, fomos ao Bistrô Reserva Cultural, que fica no edifício do jornal Gazeta, também na Paulista. O local é uma ótima pedida. Tranquilo, ótimo atendimento, agradável e excelente comida! Comi um risoto maravilhoso, mas há também diversas outras opções de massas e saladas. O restaurante fica localizado em um mezanino, logo em frente ao cinema Reserva Cultural. Valeu a dica!

1507811_607400429325351_1681020326_n E dá-lhe carbo!

Comida no papinho, pé no caminho. No dia seguinte acordamos às 6h40 para arrumarmos para a corrida, com largada marcada para as 9h. Ao descermos para tomar café, mais uma prova de despreparo do hotel: uma fila enorme. Claro, todas as pessoas desceram para tomar café mais ou menos ao mesmo tempo. No entanto, isso deve acontecer todos os anos e o hotel poderia se organizar e montar uma sala extra para ajudar no fluxo. Quase desistimos e fomos comer na rua. Mas resolvemos esperar. E demorou.

IMG_0442 Bora correr! #RunAngelRun

Saímos do hotel já era mais de 8h. No entanto, chegamos em tempo hábil para a largada. Mesmo porque, ao nos localizarmos em nosso ponto de partida, diga-se de passagem, bem distante do pórtico de largada, demoramos uns 17 minutos para começar a andar – sim, andar.. impossível correr antes de passar pelo pórtico – após o começo oficial da prova. Isso ocorre pois, é tanta gente para correr, que custa a dar vazão. Nesse meio tempo, o narrador da prova ficava falando os nomes de cidades e países dos corredores que passavam por ele: Bolívia, Colômbia, Argentina, Alemanha, México, França, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, etc. etc. etc.

IMG_0383 A empolgação pré-prova das atletas

Foi então, que a emoção começou a tomar conta de nós quatro. Lágrimas começavam a brotar dos meus olhos, principalmente, porque estava tocando Chariots of Fire, do Vangelis, marca registrada da corrida. Passamos pelo pórtico e, por incrível que pareça, dando uns trotezinhos, beeem devagar. Mas, logo, já conseguimos pegar um ritmo um pouco mais intenso, levando em consideração o número de pessoas. Gente correndo fantasiado, descalço, amarrado no parceiro e, até mesmo, com um poodle branco que já estava com a língua para fora na primeira curva.

City tour

Começava então o tour de 15 km a pé, pela região central de Sampa. Partimos da avenida Paulista, logo em frente ao Museu de Arte de São Paulo, o Masp. O local é visita obrigatória para quem vai à cidade, por se tratar de uma das mais importantes instituições culturais do país. Sempre com exposições e mostras de grandes nomes da arte de todo o mundo.

maps Masp

Seguimos sentido rua da Consolação, passamos pelo túnel José Roberto Fanganiello Melhem. Então, dobramos à direita nas Ruas Major Natanael e Desembargador Paulo Passalaqua e passamos ao lado do Estádio do Pacaembu.

Já no quilômetro 6, passamos em frente ao Memorial da América Latina, prédio projetado por Oscar Niemeyer, que abriga espaços para mostras e exposições.

AgenciaBrasil061212MCSP2-2 Memorial da América Latina

De lá, chegamos ao centro de São Paulo, correndo pelas avenidas Rio Branco e Duque de Caxias, Largo do Arouche, Praça da República e a esquina das Avenidas Ipiranga e São João (aquelas da música Sampa, do Caetano Veloso… “Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”.. no caso, o que acontece é que os batimentos já estão bem acelerados, a sede chegando com força e as panturrilhas dando sinal de vida).

tumblr_lpbsgvZ4AW1qh55e1o1_500 O Famoso cruzamento da música Sampa

Passamos também pelo Teatro Municipal, que fica na praça Ramos de Azevedo. O prédio é lindo e chama muita atenção em meio ao percurso. Atualmente, o espaço coordena escolas de música e dança e ainda recebe concertos frequentemente.

IMG_0414 Teatro Municipal

Saindo da praça, chegamos ao Viaduto do Chá, um dos cartões postais de Sampa, responsável por ligar o centro velho com o novo. Também passamos pelo Largo de São Francisco, onde está a Faculdade de Direito, abrigada em um prédio tombado como patrimônio histórico do Estado de São Paulo.

IMG_0416 Multidão que tem paixão pela corrida! #KeepRunning

Dali, chegamos à parte final da prova: a temida e mal falada avenida Brigadeiro Luís Antônio, uma subida considerada um dos trechos mais difíceis do percurso. Mas, olhe para o chão e vá com fé. Não é nenhum bicho papão como ouvimos falar por aí.

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Por fim, voltamos à bela avenida Paulista, onde cruzamos a linha de chegada em frente ao edifício da Fundação Cásper Líbero. Como curiosidade, Casper Líbero foi um jornalista e advogado, entusiasta do esporte, e criador da Corrida Internacional de São Silvestre, que leva este nome em homenagem ao papa São Silvestre, falecido e canonizado no dia 31 de dezembro.

IMG_0578 Amigos da vida e da corrida!

Bom, minha intenção era contar um pouco do que senti e vi durante essa prova, que me encheu de orgulho por ter participado, principalmente em companhia de pessoas tão especiais! Que venham muitas outras corridas, seja São Silvestre ou não! Força no pensamento e nos joelhos! E bora correr!